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01
Ago20

Vida perdida!

por cristina mota saraiva

A relação já tinha anos. E cada vez estavam mais próximos e unidos. Pelo menos assim parecia. Até pensavam fazer uma cerimónia para oficializar a união.

traicao.jpg

Mais por vontade dela. Para cumprir o sonho de menina.

Mas, a vida prega muitas partidas. Era este o pensamento que tinha, enquanto fingia observar o mar, com alguém a seu lado.

Carla, lembrou o momento do choque. Realmente nunca se conhece quem temos ao lado, mesmo que tenham passado anos. Cinco, concretamente, que viviam juntos a somar a mais quatro de namoro.

Há dois dias, Paulo saíra da cidade para participar num encontro de trabalho, como dissera, “aborrecido e desnecessário, mas que tinha que ser”. O patrão assim o determinara e um assunto que podia resolver-se por Skype, iria decorrer no auditório da cidade a meio da montanha. Estes eram os argumentos naturais que apresentava a Carla. Eram penas 100 quilómetros, mas o “patrão” queria falar com as principais chefias ‘cara’ a ‘cara’.

Carla nem tomava bem atenção nas palavras dele. Tinha que ir, tinha que ir. Ela passaria o fim-de-semana, entre a piscina e o spa, ou combinava qualquer coisa com os amigos.

De resto, já não estranhava as constantes viagens e ausências de Paulo.

Até já tinham falado nisso. O ordenado era muito bom, mas o tempo que passavam afastados era demasiado e só de cinco em cinco semanas, conseguiam um fim-de-semana juntos. Aproveitavam para sair, mas Carla achava que ele devia repensar a situação.

No dia seguinte, sábado, Paulo levantou-se sem fazer barulho, tomou banho no outro quarto, para que ela continuasse sossegada, vestiu-se, agarrou no saco e deu-lhe um beijo de despedida, e ela ouviu “descansa meu amor que eu vou para o sacrifício!!”

 Carla sorriu, mas nem disse nada, ainda sonolenta.

Ouviu bater a porta, virou-se para o outro lado e adormeceu, de novo.

Não teria, ainda passado uma hora quando o telefone tocou.

Acordou assustada e olhou o visor, número privado, estremeceu. Atendeu a medo, mas ansiosa.

Afinal era só Lídia, a sua melhor amiga. “Deve estar a ligar para se desculpar”, pensou. E recordou a última vez que tinha estado com ela. As coisas não correram bem. Porque Lídia, sem filtros disse-lhe que Paulo tinha um caso. E tencionava pô-la a par de pormenores, mas ela interrompeu-a. Para já por aí! Porque é que Paulo teria um caso?

- Isso tens que ser tu a questioná-lo!, afirmou Lidia, acrescentando que: é por ser tua amiga que te estou a dizer isto. Carla não quis ouvir mais nada, mesmo apesar da insistência da amiga.

Saiu mais depressa do café, extremamente enervada. Logo a sua melhor amiga a querer interferir na sua relação.

Ligou, de imediato para Paulo, confrontando-o. Ele ficou quase histérico.

- Eh pah! …mas essa gaja não tem mais que fazer do que azucrinar-te a cabeça? Acho que tenho que ser eu a falar com ela!, continuou.

- Não, não faças isso, deixa que eu resolvo!, frisou Carla.

Desde o inicio da sua relação, que Lídia se tinha mostrado contra, apresentando-lhe um Paulo que, para ela não existia.

Foram diversos os episódios, de Lídia a procurar mostrar-lhe que Paulo não era o que ela pensava.

Carla, nunca se deixou influenciar pela amiga, e teve que arranjar inúmeros estratagemas para contornar todas as situações em que ela insistia. Juntar Lidia e Paulo era impossível, ele recusava sempre, ameaçando confrontá-la com a situação.

Esperou que Lídia dissesse o motivo do telefonema e preparava-se para a mandar calar, mas surpreendeu-se. Apenas a queria convidar para passar o fim-de-semana com ela. Não admitia uma recusa e seria ela a levar o carro.

Não teve como recusar, afinal iria estar sozinha e seria uma boa altura para esclarecer toda a situação com a amiga.

Ficou animada. Levantou-se e começou a arranjar-se; Lídia iria busca-la dentro de duas horas.

Caprichou na roupa e na maquilhagem. Não sabia onde ia, mas queria estar bem, fez um pequeno saco com uma muda de roupa e o biquíni e meteu a toalha de praia. Lembrou a casa da tia de Lidia, numa aldeia próxima, com piscina e pensou que a amiga a levaria para aí, como já fizera de outras vezes.

Quando Paulo telefonasse contar-lhe-ia que teria um fim-de-semana diferente.

 Não demorou muito. Ele ligou. Disse-lhe que já chegara e que ia já ‘enfiar-se’ numa reunião. Apoiou a saída dela e disse-lhe para se divertir, que ia estar melhor que ele.

Estava a desligar o telefone quando ouviu a buzina do carro de Lidia. Agarrou no saco e na carteira e saiu. Ainda voltou atras para levar um chapéu.

Quando perguntou onde iam, a amiga não respondeu, apenas disse, “confia em mim”.

Com a conversa  animada,  Carla nem se apercebeu da estrada e quando deu por ela, estavam a entrar na cidade  da serra.

A amiga conduziu o carro para aquilo que lhe pareceu um turismo rural.

Entraram por um enorme portão e depararam-se com uma casa senhorial, de um só piso mais elevado. A escadaria era toda em pedra e o local era lindíssimo. Carla gostou e adivinhava um fim-de-semana em grande.

Se por fora o edifício era imponente, lá dentro parecia um cenário de filme do seculo XVIII. Espetacular! Carla estava satisfeita e pensava que a amiga cada vez a surpreendia mais.

Foam deixar o sacos ao quarto, apenas um para as duas chegava, uma vez que eram espaçosos. Combinaram, ainda, dar um mergulho numa piscina de pedra que estava no exterior enquadrada num belíssimo e bem cuidado jardim.

Decidiram jantar na varanda doquarto, com essa piscina de pedra mesmo ali ao lado do pequeno espaço exterior. Carla e Lídia de tudo faziam uma festa e tudo servia para brincar. Com um por do sol lindíssimo, o jantar decorreu calmamente, servido por um dos funcionários, que por sinal agradou às amigas que não pouparam brincadeiras, deixando o rapaz algo envergonhado.

O ambiente estava tão agradável que decidiram, também tomar ali café. Já não foram ao salão, mas prometeram que no dia seguinte iriam ali tomar o pequeno almoço. Aliás, Lídia já tinha frisado que tinham que conhecer o edifício e deambular pelo jardim. Com esta conversa Lídia parecia querer dizer alguma coisa, mas acabou por lhe faltar coragem.

Carla pegou no telefone para ligar a Paulo e contar-lhe onde se encontrava. Lídia não deixou, argumentando que ele poderia estar nalguma situação que não pudesse atender. Carla estranhou a preocupação da amiga, mas acabou por lhe dar razão e disse que ligaria ao pequeno almoço.

A noite correu serena e quando as amigas acordaram o sol entrava pelas janelas.

Organizaram-se para dividir a casa de banho e trataram de se arranjar, Lidia, a mais despachada entrou primeiro, enquanto Carla tratava de arrumar a mala e deixar tudo organizado.

Não tardou muito que Lidia saísse da casa de banho enrolada na toalha.

Carla entrou e tratou, igualmente, de se despachar. Quando saiu Lidia estava praticamente pronta. Disse-lhe que a esperaria no salão. Lídia sabia bem o motivo de toda aquela “armadilha”.  Com a ajuda de um amigo, há algum tempo que tentava desmascarar Paulo. E para que Carla acreditasse tinha que ser com um flagrante.

Paulo estava tão seguro da sua dupla vida, que não pensava que alguém se preparasse para desvendar tudo.

Carla nunca o acompanhava nas suas saídas de trabalho, muitas só mesmo como desculpa para se afastar.

Tinha uma vida segura com Carla, gostava de aparecer ao lado dela, em público, seguia-a em todos os eventos em que ela marcava presença, a maioria em trabalho, enquanto relações publicas de uma empresa estrangeira. Mas, os fins-de-semana procurava passa-los, com a sua amante, Suzana. Uma mulher vistosa, loira e que conhecera num dos seminários que frequentara, enquanto palestrante, onde ela dava apoio logístico. Embora em empresas diferentes, organizavam-se para marcarem presença nas diversas iniciativas a que poderiam assistir. Quando assim não era, arranjavam maneira que fosse, ou tratavam de inventar situações

Não davam muito nas vistas, mas apresentavam-se sempre muito unidos e companheiros. Apesar de terem sempre dois quartos, quando eram as empresas que os contratavam a marcar,  escolhiam um para ficar juntos. As palestras para os quais eram contratados, davam sempre espaço para encontros fortuitos, nem que fosse durante as refeições. Quando assim não era, esperavam pela noite.

Paulo nunca sentira remorsos da via dupla que levava. Carla era o seu porto seguro, a sua casa, a sua mulher. Suzana era a aventura, o risco, o desafio, a cumplicidade. Iria ser sempre assim. Seria difícil ser apanhado, porque tudo era feito com normalidade e ninguém reparava na grande intimidade de ambos. Pensava Paulo. Por isso, nunca gostara de Lídia, ela era das poucas que parecia perceber o que se passava.

Tentava influenciar Carla, mas esta estava tão segura da sua relação que, felizmente para ele, nunca lhe dera ouvidos.

Parecia que esses tempos iam acabar e Paulo nem sonhava, quando entrou com Suzana naquele espaço.

Na manhã seguinte, saiu depois dela, era sempre mais despachada e era ela que iria escolher a mesa para os dois e preparava tudo par tomarem o pequeno-almoço, sempre com tudo o que ele gostava.

Entrou no salão olhando ao redor, embora discretamente. Passou-lhe despercebida a mesa onde se encontrava Lidia e a sua mulher, afinal o salão era grande e áqula hora estava cheio e sentia-se um burburinho animado com toda a gente em conversa.  Dirigiu-se à mesa de Suzana que já trouxera tudo o que ele gostava ao pequeno almoço. Ele chegou, deu-lhe um beijo na boca em forma de agradecimento e sentou-se à sua frente.

Lídia já descera com Carla e já se encontravam sentadas numa mesa ao fundo do salão. Lídia tinha pensado em tudo, com o seu cúmplice, que ainda nem vira. Devia, também estar a aparecer.

Viu Suzana entrar e sentar-se numa mesa mais discreta. Mas, estava tudo pensado. O seu cúmplice trataria de chamar a atenção para a mesa dos amantes.

 Lidia procurava baixar a cabeça, para não ser descoberta por Paulo. Mas, o salão era enorme. Temia que algum dos amantes visse Carla, mas era um risco que tinham que correr.

Parecia estar tudo bem. Foi então que Lidia viu Alberto entrar. Estava tudo a correr com planeado. Alberto avançou pelo salão, passou pela mesa delas, sem dizer nada e alguns passos mais à frente, elevou a voz e disse

- Paulo, o que fazes aqui… há quanto tempo!!

Todos os olhos se fixaram nele, inclusive os das duas amigas.

 Foi quando Carla viu Paulo sentado na mesa com Suzana e ficou estarrecida. Não disse nada, mas percebeu tudo. Fez-se luz. Lidia queria mostrar-lhe o que ela nunca quisera acreditar.

Manteve-se impávida e serena, continuando a observar tudo. Alberto fazia questão de continuar a falar alto e Paulo, nem pensou o que estava a acontecer.

E foi quando Alberto disse:

-Ah, finalmente conheço a tua esposa.

Paulo não reagiu e continuou calmamente.

- Apresento-te a Suzana, a minha mulher.

Carla estava incrédula, com tal desfaçatez.

Não aguentou mais e sem que Lídia pudesse fazer alguma coisa já ela e dirigia para aquela mesa. Ninguém reparava e ela apresentava um ar calmo.

Chegou, cumprimentou toda a gente com um bom dia e um sorriso . Paulo deu um pulo.

-Carla??????!!!! – que fazes aqui???

Alberto adivinhou! Sabia o que estava ali a fazer e percebeu de imediato que tinha cumprido o seu papel.

Olhou para Carla, com um ar sereno e uma beleza discreta. Ela não fez escândalo. Cumprimentou-o com dois beijos na cara. Suzana não sabia o que fazer estava entalada entre a mesa e a parede e não podia sair.

Carla falou, calma:

- Olá, eu sou, a partir de agora, a ex-mulher de Paulo. Sorriu com dignidade  e ia regressar quando Paulo, finalmente falou:

- Carla, espera, não estás a perceber, estou aqui em trabalho, apresento-te a Suzana, secretária….

- Como????, Suzana não resistiu…

 -… Pois é, desci de posto, ou subi na hierarquia? Como é?

Paulo não sabia o que fazer ou dizer. Deixou-se cair na cadeira e tentou falar.

Ninguém lhe deu hipótese, ou atenção.

Alberto agarrou suavemente no braço de Carla e começou a tirá-la dali. Ela deixou-se levar, sem forças para reagir.

Alberto encaminhou-a para um pátio interior, fresco, com um lago com repuxos. Quando se sentiu longe dos os olhares, Carla desatou num choro abafado. Alberto procurava consola-la e envolveu-a com os braços.

Carla aninhou-se e sentiu-se protegida. Não conhecia bem Alberto, só de vista, mas nunca tinham sido apresentados mas  soube-lhe bem aquele conforto! Deixou-se ficar.

Entretanto Lídia, depois de muito procurar conseguiu dar com ela, envolta nos braços de Alberto. Sorriu com o quadro e Alberto levou o dedo aos lábios para que não fizesse barulho.

Aos poucos, Carla foi saindo do estado de choque. Quis sair daqueles braços, mas sentiu-se tão bem que se compôs melhor. Alberto afagou-lhe os ombros e deixou-a estar.

Ele sentiu um carinho enorme por Carla. Iria ajudá-la a sair daquela situação. Ninguém merecia ser traído, muito menos daquela forma e ao fim de tantos anos de relação.

Alberto e Carla acabaram por se apaixonar e, um dia, ao saírem de um bar cruzaram-se com Paulo, sozinho e já alcoolizado.

Tentou agarrar Carla à força, sem que Alberto conseguisse, no imediato protege-la. Não foi preciso. Num instante se ouviu uma sonora bofetada.

- Vamos embora, disse Carla. De repente o ar ficou irrespirável.

Carla sentiu que fechava um ciclo negro da sua vida. Alberto tinha ajudado e muito. Agora só sentia pena de Paulo, que estava completamente perdido e, inclusive, fora despromovido. Não se dedicava ao trabalho, fazia inúmeras asneiras e fez perder dois importantes clientes da empresa.



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