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06
Out20

Um dia a solidão ficou forte

por cristina mota saraiva

Ele estava ali. À sua frente. Ela não queria acreditar. Era ainda mais bonito que na fotografia e daquilo que observara nas muito poucas ocasiões em que se cruzaram. Ficou enervada com ela mesma por nunca ter reparado na beleza daquele homem. Quando Aldina, a sua melhor amiga, lhe dissera que estava na altura de arranjar namorado, ela encolheu os ombros, desvalorizou.

beijo cafe.jpg

 

Logo nessa altura a amiga lhe lembrou o seu amigo Rui Jorge. Ela apressou-se a mudar de assunto. Naquele momento lembrou a insistência de Aldina e a relutância dela. Nunca dera muita atenção a Rui Jorge. Por diversas vezes Aldina lhe falara nele e realçava, para além das suas qualidades, a sua postura, a sua beleza. A boa pessoa que era e trabalhador! Agora lamentava não ter seguido o conselho da amiga!

E sim! Atualmente cada vez pensava mais  na vontade de ter alguém a seu lado. Cada vez achava que sim, que deveria arranjar um companheiro. Quem sabe… iria dar uma oportunidade a uma possível relação, pelo menos a conhecerem-se melhor.  Isto se ele quisesse. Inicialmente, recordou, ele mostrou algum interesse nela e que queria algo. Mas, ela mais uma vez conseguiu afastá-lo… agora… provavelmente seria tarde demais, provavelmente ele teria alguém.

Noutros tempos teria soltado uma gargalhada e gozado com a situação. Ela não era assim. Bahh!! Nunca precisara de um homem para fazer a sua vida. Tinha um bom emprego, aquilo que ela gostava: Relações Públicas numa das maiores empresas da sua cidade e vivia bem sozinha na sua casa, comprada por ela, conseguida com o seu suor… não precisava de ninguém para partilhar a sua vida!

Mas, se calhar… precisava, estava na altura, e até queria! Começava a baixar a guarda. Se até aí não quisera ninguém para dividir a sua vida, sempre se mostrara renitente… Agora, ali sentada no sofá, naquela mesa de um bar da moda, ao lado de um bonito homem, pensava que, se calhar estava na altura de arranjar uma companhia. Ia dar uma oportunidade àquele homem que, sentado a seu lado, lhe dava toda a atenção e a estava a tratar com tanto carinho. Estava a gostar de ser o centro das atenções

A televisão estava ligada, mas ela nem a ouvia e pensava. Se calhar a questão não seria assim tão descabida. Se calhar, seria bom ter alguém a seu lado, para falar, partilhar e até, porque não, discutir e trocar mimos.

Sim, tinha que admitir, cada vez pensava mais em como seria bom ter alguém a seu lado.

E um dia, assim, como quem não quer a coisa, deixou escapar uma indireta de como se sentia sozinha. Aldina não disse mais nada e começou logo a engendrar uma forma de a aproximar de Rui Jorge. Eram os seus dois únicos amigos solteiros e desde há muito que pensava como fariam um belíssimo casal. Mas ambos sempre se mostraram irredutíveis para o facto.

Mas, agora estava ali a oportunidade. Estava certa que ele acederia  a alguma ideia que haveria de ter.

Como os lanches quer com um, quer com outro eram já habituais, não seria difícil. Se até aí se encontrava com eles em separado, poderia juntá-los num lanche sem que qualquer um soubesse.

Recentemente abrira um bar que depressa virara moda pela originalidade. Era um espaço todo envidraçado, como uma redoma, no meio do parque, algo elevado do solo, o que levara já a maioria a chamar-lhe cogumelo. Um edifício tão bonito e original que até já  tinha conseguido um prémio de arquitetura a nível internacional. Boa escolha. Aproveitava para também ela conhecer o local.

Era o ideal. Ligou a Rui Jorge e logo depois a Aldina. Nenhum dos dois estranhou o convite, não sabiam eles o que estava atrás daquela ideia. No fundo não era descabido. Era perfeitamente normal.

No dia combinado, Aldina fez questão de ir buscar Sara, Rui Jorge iria lá ter e ela aproveitou e deixou-a sozinha, com o pretexto de ir à casa de banho.. Estava tudo combinado. Nesse entretando chegaria Rui Jorge que as observava, de longe . Assim que Aldina deixou Sara sozinha, ele avançou.

 Sara levantou os olhos quando sentiu um ligeiro toque no braço. Ele estava ali. À sua frente. Ela não queria acreditar. Em poucos segundos já estava nos braços dele, nem ela conseguiu perceber como.

Ele só lhe deu um beijo na testa. E ela quis mais, mas retraiu-se. Ele percebeu, mas apenas lhe afagou a mão e levou-a dali!


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