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Escrever e escrever, pensar, refletir... afinal não é para isso que existem os blogs? Por aqui vão passar ideias, palavras, pensamentos... tudo o que nos der na real gana... ou não seremos "Levada da Breca".
Pedem-me para falar de memórias felizes e isso faz-me recuar, de imediato, à minha infância.
Uma infância muito feliz passada entre as casas das avós. Da avó Piedade, que morando no Bairro do Castelo todos os dias me acolhia para almoçar, uma vez que frequentava a escola do Castelo, apesar de morar no Bairro do Cansado. Mas, a minha outra avó, a Leopoldina que era professora, considerou que eu podia entrar para a escola com seis anos. E assim foi, na altura não era muito usual, só se entrava aos sete anos. Mas, a avó lá conseguiu e entrei mesmo aos seis. Na verdade, tinha-os feito, apenas, há duas semanas.
Nesse tempo não havia muitos Jardins de Infância e os que havia eram destinados a uma minoria de pessoas, com algumas posses. Mas, eu também não precisei disso. O meu infantário foi muito mais feliz, passado entre as pedras e as hortas que existiam, onde hoje, em vez de hortaliças e árvores de fruto cresceram prédios. E nem foi preciso adubo, porque eles cresceram muito mais do que o desejado.
Por cima das hortas havia um espaço de lazer enorme, feito em patamares a que chamavam miradouro. Nessa altura podia ver-se dali e da casa da Avó Leopoldina, o castelo (daí o nome de Miradouro). Ainda a cidade não crescera em altura, sem necessidade nenhuma, uma vez que é plana, mas que a ganância dos homens levou a isso.
E então, antes de rumar ao Porto, vivia na casa da avó Leopoldina. E o meu infantário foi o melhor que pude ter.
As hortas estavam lá e nem os poços , que eram alguns, eram motivo de preocupação. Ali o perigo não existia para nós.
Para mim e para os meus primos que também moravam comigo, a casa era grande e dava para todos. De tempos a tempos, ou melhor nas férias escolares, vinha ter connosco a TéTé, que morava em Viseu. A tia, sua mãe, era também professora e dava ali aulas, uma vez que após o casamento ficou lá a viver.
Sendo assim, era eu, a Tininha, a Tété, o Artur, o Nuno, e o Amadeu, este o mais novo, que por ali corríamos.. Mas, também no Natal se juntava a Tuxa, que vivia em Penafiel.
E todos esperávamos ansiosos pela chegada das férias, sobretudo das grandes, como se lhes chamava, ou seja as do verão, mas também da Páscoa e do Natal. Ah!! O Natal… isso é que era.
Juntávamo-nos, então, eu, Tininha, a Tété, a mais velha e a Tuxa. Eu era a mais nova, mas nem por isso menos aventureira e sobretudo a mais líder.
E pronto, ainda as malas não tinham saído do carro, já nós corriamos por aqueles campos.
Não havia medos, não sabíamos o que eram raptos, nem outras coisas, como violações, assédio ou violência doméstica.
O único medo que, de facto existia em nós, era daquela velhota, com ar de bruxa, com nariz grande e curvado e até com uma verruga. Esse era o nosso maior perigo, mas nem por isso deixávamos de a colocar à prova (a ela e a nós) com algumas patifarias’.
Corríamos devagar, atras dela, sem fazer grande barulho, embora não fosse necessário, porque soubemos mais tarde que era mouca e pregavamos-lhe grandes sustos.
Isto, sim ! Foi uma infância feliz, muito feliz!!
* Este texto foi escrito após solicitação da Animadora Dalila Delgado, no âmbito das atividades de confinamento, #Estamos em casa, da Associação de Apoio à Criança do Distrito de Casteo Branco.
Os dias correm lentos, um após outro. Procuro algo para fazer e ocupar a mente. Dou por mim a pensar nas férias. Vá-se lá saber porquê…
Nestes dias em que a chuva ainda não chegou, mas a neve quis dar um ar da sua graça, lá mais para o norte. A ninguém lembrava que isto pudesse acontecer, as atenções estão concentradas noutras coisas, mas, pensando bem, estamos na Páscoa.
Nestes dias em que a manhã começa de noite e à tarde anoitece cedo… a hora mudou, mas as rotinas têm que se manter!
A vida continua, mas demora a passar e ainda bem… Não é isso que todos queremos? Talvez assim, o tempo corra mais devagar. IIusão pura, o que aquele bichinho havia de nos trazer?
Bem vistas as coisas, este é um sinal da natureza, a avisar-nos para vermos o que andamos a fazer. Hoje, um tempo com muito tempo, é bom… podemos pensar!
E eu penso e de repente vêm à memória as minhas férias de outros tempos que eram passadas na minha cidade, onde só voltava no Verão, em forma de imigrante.
Quando a maioria ia para a praia eu regressava à minha cidade. Praia tinha eu todo o ano. Ano cheio de saudades, esbatidas pelo olhar do mar, na areia, onde as ondas vinham também esbater-se.
A casa da minha avó também tinha saudades minhas e esperava, igualmente ansiosa, o meu regresso. Os campos ao redor também tinham saudades minhas e a primeira coisa que fazia, quando regressava para as férias de verão era voltar a saltar por eles.
Ali fui feliz! Naquele tempo, o horizonte estendia-se, os poços e as noras, estavam sempre lá e o perigo nem sequer era hipótese. Eles estavam lá, sempre à minha espera, minha e dos meus primos. E quando deambulávamos por lá e nos demorávamos, esquecidos entre as pedras e o mato… alguém da varanda chamava por nós. Não havia telrmóveis!
As brincadeiras eram desenvolvidas ali, no meio das pedras e do mato, das árvores e das hortas que não podíamos pisar. Aquela velhota com ar de bruxa, há sempre uma em todas as histórias, vagueava por ali, qual guardiã do tempo em que havia tempo, para brincadeiras, para asneiras e para o perigo que nunca víamos.
Era precisamente ali, entre os prédios que agora lá estão e que, sem eu perceber, foram subindo em altura e ocupar aquilo que chamávamos de Miradouro, ocuparam, igualmente, aquelas quintas. A casa da avó ainda lá está, mas já não é a casa da avó!
Era por aí, entre a casa da avó, o miradouro e as hortas e quintas, que desenvolvia as minhas brincadeiras. Eu e os meus primos, nas férias.
Para os dias menos bons, que também os havia, quando chovia. Lá estava a solução, no sótão da avó, nós chamávamos-lhe forro Ah!... se aquele forro falasse…
Era eu, a Tininha, a Tuxa e a Tété… que ali fomos crescendo… e aprendendo…primas muito unidas, mas depois a vida foi-nos afastando.
De tudo isto e mais alguma coisa, sobra de uma infância feliz! Muito Feliz!!!
Por ali, entre as hortas que o homem deixou de cultivar, o miradouro também desapareceu e, de repente, subiram prédios em altura, sem que para isso houvesse necessidade. Afinal a minha cidade é plana, não precisava de prédios altos!
No meio de tudo isto, sobrou aquela pedra!
Uma pedra que tantas vezes serviu de escorrega e que um dia me valeu um grande ralhete, seguido de um castigo, porque as calças, acabadinhas de estrear, novinhas, que a mãe acabara de fazer, chegaram rotas a casa. Sim, rotas! A culpa foi da pedra que resistiu ao tempo e à evolução e que ainda hoje lá está, para me lembrar a minha infância feliz e o castigo que me valeu. Mas, o que é certo, é que o prazer de ter escorregado pela pedra, esse ainda hoje resiste!
E as calças, puf, a mãe fazia outras. Sim, desde pequena que eu passeava os modelitos mais sofisticados da moda.
A mãe conta que passava pela única loja de roupa de criança que havia na cidade, parava junto à montra e fixava os modelos. Chegava a casa e fazia. Assim que saia à rua com o novo fato, saia, vestido, calças ou camisa, o sucesso era garantido.
Tanto que a vizinha do prédio cor de rosa logo se apressava a fazer igual para a filha. Invejosa!...
Mas, não havia problema. A mãe depressa se lançava a modificar tudo, para que eu continuasse a vestir modelos exclusivos!
É pois ela a culpada de eu ainda hoje ainda continuar a gostar de exclusivos.
Só que hoje a mãe já não faz os exclusivos e tenho que me sujeitar ao que existe nas lojas!
Mas as memórias que aquela pedra ma traz valem mais que tudo isso!