Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Escrever e escrever, pensar, refletir... afinal não é para isso que existem os blogs? Por aqui vão passar ideias, palavras, pensamentos... tudo o que nos der na real gana... ou não seremos "Levada da Breca".
Ela queria. Ele também. Mas, para ela… a situação não se coadunava com o que sempre defendera. Não se conheciam pessoalmente e ela não admitia um relacionamento destes. Se mesmo quando as pessoas se conhecem bem e convivem lado a lado, as coisas não funcionam, o que se poderia esperar de um relacionamento virtual. Por outro lado, que tal arriscar? Poderia correr bem!

Foi relaxando e foi querendo. Queria conhecê-lo, estar com ele, frente a frente. Ouvir a sua voz, sem ser pelo telefone, olhá-lo nos olhos, sentir a sua presença, o seu cheiro…
E foi-se convencendo, ou deixando-se convencer. Não lhe disse nada, mas procurava mentalizar-se. E foi cedendo, cedendo, até que um dia aceitou a proposta de tomar o tal café.
Num sítio público. Na Gare do Oriente! Onde havia muita gente!
Não havia perigo. E combinaram. Dia e hora. Ela foi, ainda assim, a medo.
Sentou-se numa mesa, mais recatada… pois queria estar à-vontade para falar com ele e tentar descobrir o que não conhecia. Se bem que já ia sabendo algo. Mas nada melhor que um frente a frente. Ela sabia da sua doença. Ele fez questão de lhe contar. A vulgarmente conhecida por doença dos pezinhos, a Paramiloidose.
E estava assim nestes pensamentos quando alguém lhe tocou no ombro. Virou-se ansiosa. E ele ali estava. De muletas e muito mais bonito que nas fotografias. E a voz… hummm! Nada tinha a ver com a voz meiga do telefone. Era, ainda mais suave e ao mesmo tempo mais profunda. Ah! E aqueles olhos?
Ainda bem que aceitara aquele encontro para um café. Este foi, pois o primeiro de muitos cafés, embora não todos os que poderiam e deveriam ter bebido. E assim foram tendo muitas conversas de muitas cumplicidades. E continuaram. E ela foi percebendo, aos poucos, alguma fragilidade. Ele nunca procurou esconder a sua doença. E foi resistindo. E foi vivendo. Sabia que tinha pouco tempo de vida. E queria aproveitar ao máximo. E aproveitou!
E ela até aceitou casar com ele. Na aldeia dele. Uma grande festa, como ele merecia. Ela, juntamente com a mãe dele fizeram questão de que assim fosse. Foi um dia muito feliz para ambos, embora no semblante dela, quem estivesse atento percebia a sombra e a tristeza.
Ela, melhor que ninguém sabia que aquela felicidade ia durar pouco. Dias, semanas, meses. Era imprevisível. Não mais do que isso. Mas não ia permitir que nada estragasse o dia, o dia dele. Como ele quis. E assim foi. Correu tudo a preceito e todos perceberam que ele estava feliz e viveu o dia intensamente.
No final, já recolhidos no quarto, ele agradeceu-lhe e abraçou-se a ela. Ficaram assim por tanto tempo, que acabaram por adormecer.
No dia seguinte ela acordou sobressaltada e percebeu que estava sozinha, na cama. Levantou-se rápido, nem procurou o robe e foi mesmo assim, com a camisa de dormir branca, de cetim, curta. Fora ele que a escolhera para aquela noite.
Deu com ele, olhar sereno, sentado no na poltrona. Aquela que ela tinha escolhido escrupulosamente para ele.
Puxou-a e deu-lhe um beijo profundo e demorado. Sem saber porquê, ela estremeceu. Nunca lhe tinha dado um beijo assim. E voltou a agradecer-lhe, por lhe ter proporcionado o melhor dia da sua vida.
Não penses nisso. Teremos muitos mais e se calhar, ainda melhores. Foi um dia bonito, sim! Muito bonito! Mas teremos mais, podes ter a certeza. Ela começou a notar nele alguma fraqueza. Perguntou-lhe o que se passava. Ele fugiu e apenas lhe fez prometer que iria viver a vida dela alegremente!
Ela continuava preocupada percebia algo estranho nele. Não sabia o quê!
A partir desse dia ele ficava cada vez mais em casa. Já não saia, foi-se recolhendo e apenas se permitia passar as tardes no grande terraço da casa. As suas fragilidades e dificuldades iam piorando. Até que teria que ser internado.
Mas, não foi! Ela fez questão de lhe proporcionar todo o conforto e para isso preparou-lhe o quarto lá em casa.
Ela ficou ao lado dele, no quarto preparado como se fosse uma enfermaria, para que ele pudesse permanecer no seu ambiente.
Até que chegou a hora e ele partiu com um sorriso nos lábios e agarrado à mão dela,
Foi duro! Muito duro! Ela fez um luto prolongado, mas um dia, quando bebia café no terraço, lembrou-se do que lhe prometera! Que iria continuar com a sua vida e vivê-la alegremente.
Tinha que mudar, não podia continuar entregue ao sofrimento. Prometeu a si mesma que iria mudar. Não queria desiludi-lo, onde quer que ele estivesse. E desde esse dia que se permitiu continuar a viver, para cumprir a promessa que lhe tinha feito. Recomeçou a encontrar-se com os amigos e até fez obras em casa. Umas obras que já tinham sido faladas e que foram sendo adiadas. Pronto recuperara a sua normalidade. A promessa estava a ser cumprida!!

Sim, sou uma chrona… não me envergonho de o dizer! E estou muito melhor agora, porque a minha profissão me obrigou a ser uma pessoa mais fria. Ensinaram-me que não devia mostrar os meus sentimentos. E se sempre procurei distanciar-me dos problemas para os poder escrever sem misturar esses ditos sentimentos, a verdade é que alturas houve em que as lágrimas correram.
Quando assistia à Marcha Contra o Cancro, depois de me movimentar, tirar fotos, falar com alguns participantes e fazer o meu trabalho, alguém chegou ao pé de mim e não aguentei mais… desatei num choro compulsivo…porquê, porque não me consegui conter mais. Tocou-me o gesto das pessoas caminharem por uma causa, mesmo que de forma simbólica.
Chorei quando vi pessoas que passavam fome e aguardavam ansiosas pela chegada dos sacos com bens do Banco Alimentar.
Chorei quando vi pessoas a olhar incrédulas para a sua casa que ardia e ninguém conseguia conter as chamas.
Chorei quando entrevistava uma mãe que lamentava a perda do seu bébé num incêndio em casa.
Sim, chorei! Sou jornalista, mas sou uma pessoa e sensível. Porra! Não posso chorar porque sou jornalista! Sim, POSSO! Muitos recriminavam. Eu muitas vezes também me recriminei por ter que fazer diversos trabalhos em circunstâncias extremas! Procurei sempre manter uma postura correta e sensível, perante os acontecimentos. Mas pronto foi assim… e chorei!
Chorei em trabalho, como chorei, com as devidas distâncias de situação, a ver o Titanic ou o Top Gun! E não me arrependo. Primeiro porque não consegui controlar as minhas emoções e depois porque também não queria controlá-los! E nunca, mas nunca, as minhas lágrimas turvaram a minha escrita. É como aqueles que dizem que um jornalista não deve, agora já não pode, perante a Lei… ser filiado num partido político! Eu cheguei a sê-lo, mas acabei por sair, mais tarde e não foi por isso que deixei de ser isenta na minha escrita! Nunca ninguém teve nada para me apontar!
Mas, voltando ao início, sim, sou uma chorona, porque sou uma pessoa, sou sensível e sei colocar-me no lugar dos outros e sentir as suas dores! Não me envergonho disso, e como certa vez disse a uma colega que perante um incêndio que estava a chegar junto a ela e dos colegas, chorou quando fazia um direto para a sua estação de rádio. A situação era bastante grave, não tinha que se envergonhar por isso, uma vez que ela própria para dar conta dos acontecimentos, colocou a sua vida em risco. Uma situação desnecessária, mas que aconteceu e não tem ela nem ninguém que se envergonhar por dar o seu melhor. Agora tenho a certeza de que não devemos reprimir os nossos sentimentos, seja em que circunstância for. E eu nunca me arrependi, porque sempre procurei, e procuro, ser verdadeira!
E choro, mesmo que seja em trabalho!!