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20
Out20

Pedro partiu feliz

por cristina mota saraiva

doente 1.jpg

Abriu a carta que nunca quis abrir. Sabia o que ali estava escrito: a derradeira declaração de amor. Por isso, abriu mas não viu… apenas sentiu. E as lágrimas escorreram dos olhos. Há muito que sabia que  aquela carta, que nunca quis abrir, iria ter que ser lida mas… agora que estava ali, não queria lê-la. Não era preciso. Só o facto de abrir aquela carta já dizia tudo! Ele quando tomou consciência da gravidade da doença fez questão de a escrever.

As lágrimas não estancavam. Obrigou-se a estaca-las e a cumprir a promessa que lhe tinha feito: não chorar. Mas as saudades não tinha prometido deixar de as sentir. E para não quebrar a promessa, apenas chorou das saudades sentidas!

Não tinha data prevista, mas tinha destino marcado. Pedro estava longe, nos Estados Unidos. No melhor hospital. Tentaram tudo com esperança, muita! Cedo souberam que não havia cura.

Mas, os avanços da medicina eram diários e Pedro já era a prova disso. Já desafiara o destino, em pelo menos dois anos.

Este tratamento era a última esperança. Ainda era experimental, mas podia ser que resultasse. Não resultou! Pedro falecera ontem. A despedida havia sido há uma semana, quando ela conseguiu deslocar-se aos Estados Unidos. Não pode ficar mais tempo. Dada a situação pandémica que se vivia, as fronteiras ameaçavam fechar. E ela tinha que trabalhar, mesmo assim, a empresa foi compreensiva e deu-lhe algum espaço para o acompanhar nos seus últimos momentos.

Quando esteve dois dias a seu lado, no Hospital, conversaram muito, acarinharam-se juntos. Ela sabia que ia ser para sempre aquela despedida. Antes de regressar, Pedro entregou-lhe a carta para que a lesse depois de ele partir. Ela ainda teve esperança de a ler muito mais tarde. Ela ainda teve esperança que, com o passar do tempo pudesse esquecer a missiva. Não aconteceu.

Limpou as lágrimas e leu. Nada que já não soubesse, nada que já não tivesse sido dito. Mas agora ficara escrito! Estava registado!

As lágrimas não paravam, não queriam parar. Ela pensou que se chorasse tudo, talvez elas secassem. E quando isso acontecesse, em vez de chorar iria rir-se sempre que se lembrasse dele, pois se já não havia lágrimas…

Com este pensamento esboçou um sorriso e olhou para a fotografia, que transformara em quadro. Fora a ultima fotografia, tirada no Hospital, e voltou a sorrir, ao pensar na produção feita para que o registo fosse o melhor possível e mostrasse o seu Pedro de sempre. Não se notava que ele tinha base e até blush e que um lençol branco por trás escondia as máquinas de suporte de vida e tantos outros instrumentos que lhe permitiam maior qualidade de sobrevivência.

Pedro partiu e ela tinha a certeza de que partiu feliz. Tudo fizera para isso. Agora restavalhe a fotografia transformada em quadro!

 

* este texto foi escrito para responder ao desafio de Pedro Chagas Freitas, no seu blog. O mote era a frase "antes de partires!.


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