por cristina mota saraiva
Deixa-nos a saudade. Saudade das conversas longas que tínhamos — passaram mais de vinte anos de conversas, de tertúlias... Ele falava sempre mais do que eu! Porque eu ficava embevecida a ouvi-lo. E ali ficávamos, noite dentro. Ia buscá-lo a casa, depois conduzia sem rumo até encontrar o local ideal para ficarmos à conversa.
Outras vezes, as conversas eram mais ruidosas — havia sempre gente a intrometer-se. O Platinium... ah! o Platinium! Era outro dos nossos refúgios. Um grupo restrito juntava-se, e de tudo se discutia. Tu, um intelectual acima da média — ou não fosses filho de quem és — “arrumavas” rapidamente connosco. E depois, ali ficávamos já numa conversa mais descontraída, mais jocosa. No final da noite, voltava a deixar-te em casa.
Era assim a rotina desta amizade.
Até que um dia me convidas para um projeto aliciante, diferente, inusitado para esta cidade que nunca soube reconhecer o teu talento — talento que poucos conheciam, alguns apenas desconfiavam, e outros nem adivinhavam!... Até porque filho de peixe sabe nadar. E tu navegavas nas mesmas águas de quem te deu tudo a conhecer. Tão diferentes, mas tão iguais — pai e filho!
Agora fica a saudade.
A recordação daquele dia de piscina, onde tudo se conjeturou.
Até sempre. Leva contigo as saudades para o céu, onde vais encontrar aqueles que te deram o ser.