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25
Abr20

Onde estava no 25 de Abril?

por cristina mota saraiva

Esta é a pergunta retórica que fez história! Lembro-me do dia 25 de Abrli de 1974 e de como as aulas acabaram, na Escola Preparatória de Valadares, freguesia de Vila Nova de Gaia. A professora de Religião e Moral informou a turma do que estava a acontecer um Golpe de Estado. Cabelo emproado, sempre, sem que um só fio saísse do sitio, tal a quantidade de laca que colocava. Um cabelo que impunha respeito e que nos distanciava, ainda mais, dela.

cravo 25.jpg

 

Estava nervosa e sorumbática. Pensando bem, e recordando a figura, era a verdadeira imagem do fascismo, quando fez a comunicação à sala. Nós todos, de bata azul claro vestida, a minha tinha o C bordado no bolso, sentimos a ansiedade e até o medo da professora. Já não me lembro do seu  nome, mas lembro-me do que disse. “Acaba de acontecer um golpe de Estado e, por isso, hoje não haverá mais aulas. Vamos todos para casa!”.

Acho que ficámos contentes e para mim, miudita, pouco significado teve na altura. Acabei por sair da escola e fazer cerca de doze quilómetros, a pé, até casa, na Madalena.

O percurso que normalmente fazia de autocarro, ou comboio, foi feito a pé. Não havia transportes e lá fui eu, pelas estradas vazias e sem movimento, outro cenário pouco habitual e que estranhei. Estranho havia já sido o cenário junto à Estação de Valadares, onde não se via ninguém, Nada!

Continuei sem perceber, o que era isso do tal Golpe de ‘Estado’. Foram cerca de 12 quilómetros entre o pinhal e o alcatrão. Mais tarde, o meu pai explicou-me que os homens que de vez em quando iam lá a casa, durante  a noite à sua procura iam deixar de o fazer. Tinha sido conquistada a liberdade. Eu e a minha mãe vivemos algum medo nas noites do antes 25 de Abril. O meu pai, na altura responsável pelos escritórios de uma empresa, estava destacado em Lisboa e vivia no Largo do Carmo, onde decorreu toda a ação. Nunca chegou a ser preso, mas pouco faltou, porque o seu nome constava dos cadernos da PIDE. Nada estranho porque já ele na altura era jornalista, foi correspondente da Capital, de fraca memória e participava ativamente na vida cultural da Madalena. Nunca mais esqueci o Clube Atlântico da Madalena, onde foi diretor e ainda hoje anda lá em casa um cinzeiro com o símbolo dessa agremiação.

Caminhando pela estrada, cruzei-me com inúmeros jipes carregados de soldados. Um deles embrenhou-se no Pinhal, parou lá mais à frente e os soldados saltaram, correndo todos na mesma direção pinhal adentro.

Era tudo estranho, mas eu estava indiferente. Afinal estava a viver uma grande aventura. Cheguei à Madalena e comecei a subir a rua ingreme. Já estava perto de casa, mas estranhamente, tudo continuava silencioso e nem aquela estrada que dava acesso à praia, sempre movimentada, apresentava o bulício habitual. Não pensava nisso. O cansaço tomava conta de mim e já só queria chegar a casa, na Rua do Barreiro. Subi, passei a ponte sobre a linha férrea e nada, nenhuma azafama lá ao fundo na Estação. Acho que apressei o passo. Depois da ponte, se a memória não me falha, voltei `s esquerda e continuei pelo bairro.  Tudo continuava silencioso. Continuei a andar, passei à casada tia Minda, junto ao Rego da Água, assim se chamava aquele largo e subi, então a rua. Estava quase, só mais um esforço. As ruas continuavam desertas Subi, passei junto áquela casa bonita, com um grande jardim relvado e estava quase lá. A mãe recebeu-me de braços abertos e sossegou a preocupação. Já tinha ido ver de mim à escola. Foi de táxi, mas não deixaram que me falasse comigo, ou sequer me visse. Por isso esteve umas horas, preocupada, sem saber que eu Ovivia uma aventura da qual não me esqueceria, precisamente nesse dia e fruto das contingências.

Onde estava no 25 de Abril. Esta é a minha resposta, algures na estrada entre Valadares e Madalena!o que marcou ainda este dia, na minha lembrança, foi o facto de a televisão só transmitir musica clássica e, de vez enquanto vir um senhor ler uns comunicados.



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