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24
Out20

O homem no banco do Jardim

por cristina mota saraiva

banco 1.jpg

A criança mostrava um ar intrigado. Já há algum tempo que olhava para aquele banco do Jardim, onde estava um homem sentado acabrunhado, triste, mesmo. Apesar dos seus 12 anos, a criança percebeu que algo não estava bem com o senhor. Dirigiu-se a ele e questionou:

- Que fazes aqui sozinho?

- O velho levantou a cabeça e sorriu para o pequeno

- Olha estou a passar o tempo!

- E porque não tens companhia?

- Agora já tenho!

- Mas antes de eu estar aqui?

- Estava à espera de alguém que já não vem…

O menino enrugou a testa e o velho percebeu que tinha que ser mais direto com o garoto!

- Sabes, um dia tive um amigo como tu. Aliás, era mais do que um amigo. Era também um menino, que me chamava avô

- E onde está, agora, esse menino?, questionou o pequeno.

- Não está! Partiu… - continuou o velho.

- Então e quando é que volta?- o pequeno estava cada vez mais intrigado.

- Não volta! – afirmou o velho, com lágrimas nos olhos.

- Não volta? Então se não volta, porque é que estás à espera dele?

- Para que ele saiba que estou aqui!

O menino estava cada vez mais intrigado. Pensou mesmo que o velho não devia estar já muito bom da cabeça.

Percebendo a confusão do menino, o velho decidiu explicar:

- Sabes, havia um menino que passeava comigo, sentava-se aqui comigo, ia para casa comigo, era o meu melhor amigo. Esse menino chamava-me avô. Um dia, eu não saí com o menino. Ficámos em casa e como não saímos, o menino foi para a rua jogar à bola. De repente, só ouvi uma travagem brusca e gritos. Fiquei estático, percebi o pior, que viria a confirmar-se.

- O que se passou?

- O menino foi atropelado e eu nunca me vou perdoar por isso!

 E as lágrimas correram. O menino esticou a mão e limpou-as.

Percebeu tudo, apesar da sua tenra idade. Deu a mão ao velho, sentou-se a seu lado e encostou-se a ele.

O velho não esperava aquela reação e passou o braço pelos ombros do menino.

- Posso ficar aqui contigo?

- Sin, podes. E os teus pais? Questionou.

- Eles estão em casa, mas eu não gosto muito de lá estar.

- Mas lá é que deves estar...  porque é que não gostas de estar em casa?

- Porque os meus pais estão sempre a discutir e não falam comigo. Além disso, qualquer coisa que eu diga ou faça é motivo para o meu pai me bater. Eu não quero voltar para casa. Posso ficar contigo? Já trouxe roupa para ir para qualquer lado. Seja para onde for, não volto para casa fico na rua! Vou ver de um sitio onde possa dormir e onde não tenha muito frio. Posso ficar contigo?

- Não! Como te chamas?

- António! respondeu o garoto, com lágrimas nos olhos.

- Deixa lá, se não ficar aqui contigo, vou para outro lado e assim fazíamos companhia um ao outro. É que eu fugi de casa. Não volto mais. E tu como te chamas?

- Eu gostava muito, mas não pode ser! Depois vinha a policia e os dois íamos ter problemas. Eu chamo-me Rafael.

- Vá lá, Rafael, ninguém precisa saber… - insistia o garoto.

- Bem, para já, vamos para minha casa e depois logo se vê, está a ficar muito frio. O velho gostou de ouvir o seu nome na boca do pequeno e ficou convencido de que iria ter muitos problemas ao acolhe-lo, mas viu no garoto uma companhia. Não queria substituir o menino pelo neto, mas podia salva-lo da rua e ter alguém com quem falar, mesmo que fosse uma criança.

Sabia, por outro lado, que se ficasse com o menino podia ter problemas. Mas também não ía deixá-lo sozinho na rua.

Estava decidido! Iria acolher o garoto!

António depressa esqueceu a casa dos pais e se afeiçoou e adaptou ao velho.

Rafael falou com uma amiga da Segurança Social e começaram a procurar uma forma para que pudesse ficar com o garoto.

Não foi difícil! Os pais não puseram entraves e assinaram os papéis para que pudesse ficar como tutor do António. Para facilitar o processo, Rafael deu alguum dinheiro aos pais, sem que tal fosse do conhecimento das técnicas, nem do garoto.

Afinal, tudo se resolveu a contendo para todas as partes e António viveu feliz com o velho Rafael, a quem passou a chamar avô.

 

 

* este texto foi escrito para responder ao desafio de Pedro Chagas Freitas, no seu blog. O mote era a frase "O homem que estava sentado num banco de jardim”.



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