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28
Ago20

Leitura ao final da tarde!

por cristina mota saraiva

Ali, sentada no jardim, lembrou a forma como o conheceu. Uma saída até ao parque, final da tarde. Estava ela sentada num banco e lia. Era uma rotina. Naquele tempo em que pouco havia para fazer… sim, estava de férias, finalmente! E agora que estava de férias sem nada para fazer, pensou o quão importante era, de facto, fazer alguma coisa. Ter uma atividade. Estar ocupada.

casa america.jpg

 

O ócio é o pior dos inimigos e naqueles estranhos pensamentos julgou ouvir alguém perguntar se podia sentar-se. Respondeu autómata: Claro que sim, não há problema. Quase nem olhou apenas viu um vulto e um sorriso, porque o sol estava forte e não lhe permitiu vislumbrar o rosto. Mas, gostou da voz. E logo depois, voltou aos pensamentos: que estupidez o que estou eu a pensar. Então não é agradável estar aqui, colocar a leitura em dia, apanhar sol e até, porque não, travar conhecimento com outras pessoas.

E foi por isso que levantou os olhos e saudou o estranho. Ele voltou a sorrir e ela ficou presa naquele sorriso. Agradável.

Ele apresentou-se: Sergio! Ela respondeu: Sandra, prazer!... e voltou ao livro.

- Então a colocar a leitura em dia?... ela percebeu que estava a ser simpático e queria iniciar uma conversa.

- Sim, já há algum tempo que não fazia este programa – continuou.

- Eu então, sempre que o sol aparece, venho até aqui!  Traz-me paz de espírito! Dá para relaxar, respirar ar puro e esquecer.

Ela estranhou a conversa, mas percebeu que ele queria falar e abriu caminho a isso.

- Esquecer??? – questionou.

- Sabe problemas que ás vezes ajudamos a criar!... Deixo-me levar pelo coração e depois… bem depois, percebe, depois vem o sofrimento.

Ela acenava afirmativamente..

- Se quiser desabafar…

- Sabe, ela era a mulher da minha vida. Disse-lhe várias vezes e ela sempre a fugir, quase a desprezar. E eu a insistir e a persistir. Até que ela cedeu, aceitou e disse-me que sim. Rejubilei, pode imaginar. Foi num final de tarde, numa esplanada que dava para a piscina municipal. O sol baixava lá ao fundo e para lá do muro ainda se sentia o burburinho dos resistentes na água.

Enlacámo-nos e demos o beijo preso durante anos.  Ela foi a primeira a descolar os lábios, mas eu, de tão eufórico que estava nem percebi. E também que haveria para perceber?... ou se calhar havia!

Permanecemos colados naquela esplanada, ao final da tarde, com o sol a descer.

Sandra pensou, o homem está tão magoado, que nem se lembrava que partilhava o seu sofrimento com uma desconhecida.

Não disse nada e continuou a ouvi-lo. Achava que devia faze-lo. Pôs-se no lugar dele e pensou que se fosse ao contrario gostava de ter alguém para a ouvir.

Ele continuou. Mas, foi uma felicidade efémera. Jantámos juntos, ali perto da piscina. Voltámos ao Bar para tomar café e continuamos a passear por ali.

Estava feliz! Muito! – afirmou.

Mal sabia eu o que iria passar-se no dia seguinte.

Acordei, bem disposto e liguei de imediato. Não atendeu. Também não dei importância. Pensei ser cedo. Comecei o meu dia, embrenhei-me no trabalho, muito feliz. Já há muito que não me sentia assim. Tudo estava no bom caminho.

Sérgio continuava a relatar os acontecimentos e eu continuava a ouvi-lo.

Voltei a ligar, uma, duas, três vezes… nada. Quando saí, ao final da tarde, passei por casa dela. Veio uma senhora que me disse: a Sandra deixou a casa. Arranjou trabalho no norte do país e foi.

Foi como uma faca espetada no coração. Nunca mais a vi.

Eu fiquei sem saber  que dizer e apenas me saiu: coragem, tudo vai passar. Custa, mas vai passar.

Passados dias cruzei-me com Sérgio. Aliás, foi ele que me viu e me chamou:

-Sandra! Olhei e dirigi-me a ele. Aparentava um ar cansado, mas parecia bem disposto.

- Olá – disse-lhe, acrescentando – tomamos um café?

- Vamos a isso, pagou eu!

Estava bem disposto, fiquei sossegada. Pediu-me desculpa por ter sido tão má companhia naquele dia.

- Mas já passou!... melhor está a passar! Tem que passar!

Afinal pensava que era a mulher da minha vida! Anos de paixão e depois… isto?

- Há coisas que não merecem os nossos pensamentos muito menos o nosso sofrimento.

-Sim, claro que dói, mas vamos seguir. Nesse sentido… que tal almoçarmos?

-Não sabia o que dizer. Não ia, agora agarrar-se a mim, para esquecer a outra.

-Não! Mas ele insistiu, insistiu e eu acedi. E, ainda bem!

Passaram dez anos! Vivemos numa casa terrea, com um bonito jardim em frente. E somos felizes.



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