Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Escrever e escrever, pensar, refletir... afinal não é para isso que existem os blogs? Por aqui vão passar ideias, palavras, pensamentos... tudo o que nos der na real gana... ou não seremos "Levada da Breca".
O tema que me pedem hoje é o de uma descoberta infantil!
Que mais poderia ser do que uma desilusão. Melhor uma descoberta que levou à desilusão.
Sempre vivi com muita intensidade o Natal. O Natal da reunião, da família. O Natal das festas, o Natal das prendas. Mas, sobretudo o Natal da mesa cheia de gente e de comida.

As férias do Natal eram as mais especiais, a par das de Verão. A casa da avó Leopoldina, onde vivíamos, na Rua Padre Manuel Crespo, enxia-se de gente. Mãe, pai, avó, tios, primos, e tios dos primos. Era uma festa! Uma grande reunião que assinalava o Nascimento de Jesus e a chegada dos Reis Magos. Portanto, depreende-se que eram quinze dias de muita animação na casa da avó.
Para mim e para os primos era sinal de liberdade, de brincar à chuva, de não ter horas para nada. Os adultos encarregavam-se de nos gerir o horário. As aventuras eram certas e as maleitas só eram lembradas na altura de regressar a normalidade, cada um para sua casa e cada um para sua escola, com inúmeros arranhões e diversas nodoas negras.
Quando chegava a noite de deixar o sapatinho na chaminé, a euforia era enorme!
Depois do jantar, da noite de 24 de Dezembro, era tarde que íamos para a cama. Antes de ser levantada a mesa, cantava-se ao Menino. Já todos sabíamos as letras das músicas tradicionais da época e também nós, os mais pequenos, ajudávamos em coro.
Depois o cansaço vencia-nos. Subíamos ao primeiro andar. Eramos seis crianças e depois de saltarmos nas camas e fazermos muito barulho, alguém vinha impor ordem e fazer com que sossegássemos.
Contrariados, procurávamos acalmar e não era dificil. Mas houve uma véspera de Natal, em que fingimos sossegar e dormir. Os adultos, ficaram no andar de baixo mas, nós, as mais velhas lutamos contra o sono. As primas tinham descoberto o segredo e vieram contar-me e destruir um dos mais bonitos sonhos que tive, enquanto criança. Afinal, não era o Menino Jesus que trazia as prendas! Não??, questionei desiludida. Rebati a descoberta e, logo ali, combinámos não dormir nessa noite. Ia ser difícil, mas estávamos convictas na ideia de descobrir que, afinal não era o Menino Jesus que deixava as prendas no sapatinho e sim os nossos pais. Eu era a mais excitada e tinha a certeza de que não iria dormir, sem descobrir a verdade. Procurámos conversar, andávamos de quarto em quarto, tentando não fazer barulho. Acho que ganhámos essa batalha e ninguém desconfiou. Já tinha passado imenso tempo, quando veio alguém espreitar o nosso sono... pensavam eles.
Quando sentimos fechar a porta que dava para as escadas, levantámo-nos de um salto.
Era agora que íamos descobrir tudo e destruir a minha ilusão. Mas, ainda faltava uma etapa. Conseguir chegar ao andar de baixo e espiar o que faziam os adultos, sem que ninguém desse por isso. Esperamos mais um bocadinho e saímos da cama, por essa altura já estávamos as três no mesmo quarto.
Pé ante pé lá fomos. Abrimos a porta para o corredor, que chiou ligeiramente, Ficámos estarrecidas. Nada! Lá em baixo ninguém percebeu. E iniciámos a descida por uma escada com vasos a cada degrau. Tínhamos que ter cuidado Chegámos ao patamar intermédio, estava a correr bem. Continuámos, e eu cada vez mais nervosa. De facto, o bulício no andar de baixo era muito, pensávamos nós, que devíamos estar na cama! Continuámos a descer e chegámos, finalmente ao andar de baixo. A porta estava semi aberta. Pusemo-nos à espreita. O que vi, lembro-me, ainda hoje, apertou-me o coração e fez com que as lágrimas saltassem. Não consegui conter o choro e entrar para o corredor. Choquei com o tio, que trazia um enorme embrulho. Os adultos ficaram especados incrédulos. Mas, depressa reagiram e tentaram encontrar desculpas, cada uma pior que a outra e eu tive consciência disso. Desvaneceu-se a ilusão do Menino Jesus! No dia seguinte, percebi que o embrulho que o tio transportava, era afinal a tão ansiada casinha de bonecas que, desde que me lembro de ser pessoa era a prenda desejada, ano após ano. Perdi a ilusão, mas ganhei a casa de boneca desejada há muito. Tinha cinco anos, mas é a memória mais forte que tenho da minha infância, não sei se pelo facto de ter ganho a casa, ou pela desilusão de descobrir que não era o Menino Jesus que trazia os presentes.
A cumprir o desafio de 30 dias de escrita, lançado pela Dalila Gonçalves, da Associação de Apoio à Criança do Distrito de Castelo Branco.