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28
Jul20

A rosa vermelha

por cristina mota saraiva

Ela andava de um lado para o outro, não conseguindo disfarçar o seu nervosismo e ansiedade. Faltavam poucas horas. O voo havia sido marcado um dia antes. Aliás, fora a própria Universidade que lhe enviara as passagens via e-mail. Um novo rumo a aguardava. Para trás ia deixar muita coisa e até talvez , o seu amor (ou nem por isso). Mas, tinha que ser. A vida assim ditara e… depois, a ideia era que ele fosse também (?), mais tarde ou mais cedo. Ou se calhar não! Vería depois.

rosa.jpg

De resto, esta seria também, uma oportunidade, mais uma, de tentar salvar a relação. Estranhamente, pensava que não ia sentir a falta dele. As coisas definitivamente não iam compor-se, sentia isso. Achavam, que se amavam, mas ela já não tinha tanto a certeza disso. Da parte dele sim, ela nem por isso. Tanto que os problemas que surgiam frequentemente partiam dela. Parecia que queria, mas não queria. Andava naquela incógnita. Já lhe dera vários sinais. Já pusera as cartas na mesa, mas ele fingia não entender. Aliás, não queria entender.

Quase eram incompatíveis e sempre fora necessário uma força muito grande, entre ambos, para não romper aquela relação que já durava há cinco anos.Ele insistia para que fossem viver juntos, ela nunca cedera, não se senta preparada para isso. Os primeiros anos viveram momentos muito bons e de enorme cumplicidade. Mas o regresso a uma rotina estranha, em que mal se cruzavam ao longo do dia, começava a fazer mossa.

Por outro lado, ela estava cansada do seu emprego na Universidade, necessitava urgentemente encontrar uma coisa diferente. Tinha que sair dali!... uma idria que a perseguia.

Esta era uma oportunidade que aguardara tanto tempo… por isso não queria pensar, agora, em despedidas, apenas numa ausência. Tinha que se concentrar em todos os pormenores: papeis e mais papeis, levava consigo um autentico escritório. A hipótese de poder rumar ao Reino Unido, ia concretizar-se. Tinha tudo em ordem. Foram meses de preparação,  depois de ter estado em Londres e ter conseguido o  Qualified Teatcher Status. Foram quatro anos a preparar esta aventura e afinal faltava um dia para se concretizar. E, agora, as duvidas apareciam. Quais duvidas? … colocou um sorriso nos lábios e saiu para a rua. Seria o seu último passeio, antes da Escócia.

Quando lembrou o nome do país sentiu um arrepio. Não sabia porquê! Escócia era Escócia, apesar de ser Reino Unido. Era enigmática, fria, histórica!

Situada entre o Oceano Atlântico a oeste e o mar do Norte a leste, ocupa o terço setentrional da ilha da Grã-Bretanha e a sua única fronteira é mesmo com a Inglaterra.

Já estudara o país, as suas tradições e os locais que poderia visitar. E pronto, lá ia à aventura. Quanto ao seu amor… que já não sentia como seu, ficou, até aliviada. Iria tirar todas as dúvidas que, achava, já não tinha.

No dia seguinte levantou-se cedo preparou-se, chamou o táxi… e lá foi.

Apesar de ser cedo, o bulício no aeroporto, para alem de anunciar um novo dia, não era mais do que uma cópia da agitação que se fazia sentir diariamente. Já nem ligava a isso e seguia como uma autómata.

Só que, sem saber como, num segundo… estava no chão. Desatou num riso compulsivo, sem se conseguir levantar de imediato. Ainda continuava a rir, quando sentiu alguém tocar-lhe no ombro.

-Precisa de ajuda? – não! – respondeu num ímpeto. Só depois levantou os olhos. O senhor aparentava algum desalento, perante tão repentina resposta. – ok! – e  voltou-lhe as costas.

-Espere, desculpe! – Viu-o voltar-se e entender-lhe a mão. –Peço desculpa pela minha impulsividade! – referiu algo envergonhada.

- Não há problema – mas fique ciente que o meu passatempo, não é propriamente, ajudar senhoras desastradas a levantarem-se  do chão.

Tau! – era só para não se armar em esperta.

- Bom dia e passe bem! O estranho virou-lhe as costas para seguir o seu caminho.

- Espere! – disse-lhe – ainda não tomei o pequeno almoço, faço questão de lhe oferecer, nem que seja, um café.

Ele, descontraiu e acabou por aceitar.

Dirigiram-se ao espaço de cafetaria mais próximo e sentaram-se numa mesa.

Feitas as apresentações, - Ana e Pedro, acabaram por descobrir que tinham o mesmo destino: Glaslgow. Ás vezes o universo conspirava a favor…. Disse ele baixinho.

- Desculpe?

-  Nada… estava a pensar que podemos fazer a viagem juntos e tentar depois descobrir a cidade. – atreveu-se a dizer

- Hummmm… é logo assim tão direto? – continuou ela.

- Não, mais impulsivo –completou.

- … sim, podemos pensar nisso –adiantou Ana, em jeito de resposta a despachar.

- Ui… isso é um sim? - Pedro arrojava na conversa.

- Não, uma promessa… - garantiu.

E lá foram. Fizeram o check in em conjunto, esperaram na sala, acabaram por comer qualquer coisa e entraram no avião.

O lugar de Ana era logo no inicio da segunda classe. O lugar dele  era quase no final do avião, mesmo lá atras. Ana ensaiou uma despedida, mas ele garantiu-lhe que ainda não tinha chegado a hora de se ver livre dele.

Ok, pensou ela… tu lá sabes!

E sabia, sabia muito bem que gostara dela e queria aprofundar mais este conhecimento. Não sabia porquê, mas gostara de Ana. Não era de uma beleza deslumbrante, mas sim, uma beleza simples, sem maquilhagem, muito interessante.

Ana sentou-se e  desculpou-se com a passageira que esperava para se sentar ao lado dela.

Como habitualmente, colocou a proteção do pescoço e preparava-se  para descansar um bocadinho.

Não foi preciso muito tempo. Caiu no sono.

Acordou com um suave toque na mão. Abriu os olhos e viu uma mão masculina a tentar acordá-la

- Ana – sussurrava - estamos quase a aterrar.

Estava ainda meia turdida e sem perceber muito bem o que acontecia no momento.

Abriu bem os olhos e viu Pedro, ali, ao seu lado.

O que aconteceu?, perguntou

- Estamos quase a aterrar – disse ele.

- Como é que vieste aqui parar? – perguntou, observando-o.

Afinal era mais novo do que lhe parecera inicialmente, o fato escuro que vestia dava-lhe um ar bem mais pesado. Observando bem, viu um homem bonito, simpático charmoso.

-Olha agora, o que é isto – falava com os seus botões. Afinal deixara o namorado em Lisboa. Namorado?? A palavra não lhe soou muito bem. Decididamente tinha que colocar um ponto final naquela relação. Tinha mesmo que ser. Sabia que ia magoá-lo. Mas desde sempre ele é que tinha insistido e investido na relação. Ela nunca lhe dera muitas hipóteses e  já quisera terminar diversas vezes, dizendo-lhe que não era justo. Ele insistia, frisando que um dia ela iria perceber o quanto gostava dele. Ela encolhia os ombros e continuava. Acomodara-se! Mas, agora começava a sentir remorsos de ter deixado as coisas arrastarem-se. Pedro estava a despertar-lhe algo que nunca sentira por João, o namorado. Não estava a perceber. Também não queria perceber!

Foi-se deixando envolver. Em Glasgow foram-se conhecendo melhor. Também ele estava ali a dar aulas. Já há cinco anos que ali estava. E gostava. Nunca pensara, para já, em regressar. Gostava do seu país, claro. Mas ali, fazia o que gostava com um excelente ordenado e todas as condições que impusera. Casa e carro, eram só algumas… Ana estava a habituar-se a todas as atenções que ele lhe prestava.

Já tinha ligado a João a por termo à relação. Ele perguntara logo se tinha conhecido alguém... Ela não foi sincera, mas disse-lhe que as coisas tinham mudado  e que iria ficar por ali algum tempo. Reforçou a ideia de que não era justo para ele. Mas, nem assim ele aceitou e disse-lhe para ter juízo.

 Depois de desligar o Skype, ficou com remorsos de não ter sido logo sincera com ele.

Estava ainda com estes pensamentos, quando Pedro tocou à porta.

Abriu com os olhos baixos, ainda aborrecida por não ter dito logo a verdade a João. Iria fazê-lo na próxima chamada.

Pedro tinha a mão direita atras das costas e depois de lhe dar um beijo na face, ofereceu-lhe uma rosa de um vermelho tão intenso que ela pensou que aquela era mesmo  a cor da paixão. Não imaginava outra… e admirou-se com estes pensamentos dela e com a atitude dele. Não o imaginava assim romântico. Nem a ela a ter este tipo de ideias. Mas, afinal, se calhar estava na hora de arranjar alguém. Como se ela precisasse de alguém. Provavelmente sim! Conheciam-se há pouco tempo, mas a empatia, no avião fora imediata. Aos pouco iam descobrindo as inúmeras afinidades.

E, então, ela decidiu baixar a guarda e deixar-se envolver. Não foi dificil. Pedro tinha sempre uma surpresa na manga… e isso estava a encanta-la. Aliás, chegou-lhe a dizer isso.

-Estás constantemente a fazer chantagem emocional comigo, afirmou.

Ele encostou-se a ela e ao ouvido só lhe sussurrou

- Achas?

 Ela não resistiu mais. Ele, envolveu-a, puxou-a e deu-lhe um beijo tão profundo e carinhoso… irresistível… ela entregou-se…



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